Parágrafo: A Filosofia da Caixa Preta

VILÉM FLUSSER - FILOSOFIA DA CAIXA PRETA (1984)


É interessante notar que Vilém Flusser realiza toda uma descrição do ato de fotografar, transitando desde o conceito de imagem ao produto "fotografia". Vale salientar que muitas das definições convencionais desses termos recebem novas semânticas ao olhar do autor, perfeitamente aceitáveis no mundo atual, ainda que a obra seja datada de 1984. Ao transcorrer por essas definições, Flusser insere a ideia de um jogo do qual fazemos parte ao nos associarmos ao aparelho fotográfico. Ele defende que, nós seres humanos - num ato de ignorância - acreditamos que somos os donos da máquina e a controlamos por inteiro quando, na verdade, somos funcionários da mesma. A ideia de servir gratuita e inocentemente a um aparelho é perturbadora, somos controlados por ele ao tentarmos dominá-lo, fornecemos dados a ele para que possa evoluir em novos aparelhos e criar novos jogos, como se vivêssemos em um laboratório sem paredes, servindo experimentos para seu aperfeiçoamento. No entanto, o autor introduz uma solução. Ao explorarmos a máquina, gerando produtos que ela não fora capaz de prever, seríamos livres, traduzindo a urgência de uma "filosofia da caixa preta", que nos sensibilizaria para tal prática. Porém, me questiono se na verdade essa liberdade não seria uma ilusão, pois o ato de levar uma máquina à exaustão também é, de algum modo, servir à ela. Ao gerar produtos imprevisíveis, adicionamos uma nova linha previsível à máquina, tornando o jogo da liberdade cada vez mais desafiador. Acredito que, no fim, estamos num ciclo vicioso de nos libertarmos do poder do aparelho e de seus desenvolvedores, que acaba por nos aprisionar cada vez mais.

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